A inteligência artificial que cria textos, imagens e vozes com aparência real também passou a ser usada por criminosos, e Murilo Moura Alencar, C-Level e board member, observa que as fraudes com conteúdo falsificado por IA, os chamados deepfakes, deixaram de ser curiosidade e se tornaram risco concreto para empresas. Os golpes não miram apenas sistemas. Miram pessoas, explorando confiança, hierarquia e urgência.
O caso mais conhecido ocorreu em Hong Kong, no início de 2024. Um funcionário da empresa de engenharia britânica Arup transferiu o equivalente a cerca de US$ 25 milhões depois de participar de uma videochamada em que o diretor financeiro e outros colegas eram, na verdade, imagens e vozes falsificadas. A seguir, o que está mudando e como as empresas podem se proteger.
O que está mudando?
Golpes de engenharia social não são novidade. Há anos criminosos enviam e-mails se passando por executivos para pedir transferências urgentes. A diferença agora é o realismo. Com poucos minutos de áudio ou vídeo disponíveis publicamente, ferramentas de IA conseguem imitar a voz e o rosto de uma pessoa com qualidade suficiente para enganar quem a conhece.
Isso amplia o alcance das fraudes. Murilo Moura Alencar, nesse contexto, frisa que ligações telefônicas, mensagens de voz e videochamadas, antes vistas como formas de confirmar a identidade de alguém, passam a ser também canais de ataque. Além disso, o custo dessas ferramentas caiu, o que permite que grupos criminosos produzam imitações em escala e com pouco investimento.
Por que executivos são alvos preferenciais
Líderes de empresas costumam ter presença pública: entrevistas, palestras, vídeos institucionais e participações em eventos. Esse material oferece aos criminosos exatamente o que eles precisam para treinar imitações convincentes.
Murilo Alencar aponta que a hierarquia também é explorada. Um pedido urgente que parece vir de um diretor tende a ser atendido rapidamente, sobretudo quando acompanhado de justificativas como confidencialidade ou prazos apertados. A combinação entre autoridade aparente e pressão de tempo é a mesma de golpes antigos, agora com um disfarce muito mais convincente.
Como as empresas podem se proteger?
A defesa mais eficaz não depende de tecnologia sofisticada, e sim de processos. Exigir confirmação por um segundo canal independente antes de qualquer transferência relevante, como ligar para um número já conhecido em vez de responder ao contato recebido, interrompe a maioria desses golpes.
Na visão de Murilo Moura Alencar, também vale estabelecer regras claras de que nenhuma operação financeira pode ser autorizada apenas por mensagem, ligação ou videochamada, independentemente de quem pareça estar do outro lado. Palavras-chave combinadas previamente entre executivos e equipes financeiras são outra camada simples de proteção.
O papel do treinamento
Equipes de finanças, compras e atendimento são as mais expostas e precisam conhecer esse tipo de golpe. Mostrar exemplos reais, explicar como a tecnologia funciona e treinar a reação diante de pedidos urgentes reduz a chance de alguém agir sob pressão.
O mais importante é criar uma cultura em que questionar um pedido incomum, mesmo vindo de um superior, seja visto como cuidado, e não como desrespeito. Empresas em que funcionários têm medo de checar uma ordem de um diretor são justamente as mais vulneráveis.
Confiança precisa de verificação
A popularização dos deepfakes muda uma premissa antiga: ver e ouvir alguém já não é prova suficiente de que é mesmo aquela pessoa. Murilo Moura Alencar pontua que isso exige ajustes em processos que, por décadas, se apoiaram nesse tipo de confirmação.
Empresas que adotarem verificações simples, treinarem suas equipes e protegerem decisões financeiras com mais de uma camada de confirmação estarão muito mais preparadas. A tecnologia dos golpes continuará evoluindo, mas processos bem desenhados seguem sendo a defesa mais confiável. Revisar esses procedimentos periodicamente, à medida que surgem novos tipos de golpe, mantém a proteção atualizada.

